28 de janeiro de 2016

Capítulo da Semana #10 - Perdido em Marte

Olá pessoal, como estão??? Espero que tod@s bem! Hoje vim trazer para vocês o primeiro capítulo de um livro que li faz pouco: Perdido em Marte. Vamos acompanhar!

Há seis dias, o astronauta Mark Watney se tornou a décima sétima pessoa a pisar em Marte. E, provavelmente, será a primeira a morrer no planeta vermelho. Depois de uma forte tempestade de areia, a missão Ares 3 é abortada e a tripulação vai embora, certa de que Mark morreu em um terrível acidente. Ao despertar, ele se vê completamente sozinho, ferido e sem ter como avisar às pessoas na Terra que está vivo. E, mesmo que conseguisse se comunicar, seus mantimentos terminariam anos antes da chegada de um possível resgate.
Ainda assim, Mark não está disposto a desistir. Munido de nada além de curiosidade e de suas habilidades de engenheiro e botânico – e um senso de humor inabalável –, ele embarca numa luta obstinada pela sobrevivência. Para isso, será o primeiro homem a plantar batatas em Marte e, usando uma genial mistura de cálculos e fita adesiva, vai elaborar um plano para entrar em contato com a Nasa e, quem sabe, sair vivo de lá. Com um forte embasamento científico real e moderno, Perdido em Marte é um suspense memorável e divertido, impulsionado por uma trama que não para de surpreender o leitor.


Capítulo 1

DIÁRIO DE BORDO: SOL 6

Estou ferrado.
Essa é a minha opinião abalizada.
Ferrado.
Seis dias após o início daqueles que deveriam ser os dois meses mais importantes da minha vida, tudo se tornou um pesadelo.
Nem sei quem vai ler isto. Acho que alguém vai acabar encontrando. Talvez daqui a cem anos.
Que fique registrado: não morri em Sol 6. O restante da tripulação certamente achou que eu tivesse morrido, e não posso culpá-los. Talvez decretem um dia de luto nacional em minha homenagem e minha página na Wikipédia vá dizer: “Mark Watney foi o único ser humano que morreu em Marte.”
E, provavelmente, isso estará correto. Porque, sem dúvida, vou morrer aqui. Só que não em Sol 6, como todo mundo está achando.
Vejamos... por onde começar?
O Programa Ares. A humanidade voltando-se para Marte com o intuito de mandar pessoas para outro planeta pela primeira vez e expandir o horizonte da raça humana, blá-blá-blá. Os tripulantes da Ares I fizeram o que tinham de fazer e voltaram como heróis. Foram recebidos com desfiles, conquistaram a fama e o amor do mundo inteiro.
A Ares 2 fez a mesma coisa, em outro local de Marte. Receberam um aperto de mão firme e uma xícara de café ao chegar em casa.
A Ares 3. Bem, essa foi minha missão. Certo, não exatamente minha. A comandante Lewis era a responsável. Eu era apenas um dos tripulantes. Só ficaria “no comando” da missão se fosse a última pessoa que restasse.
Quem diria?... Estou no comando.
Fico me perguntando se este diário será recuperado antes que o restante da tripulação morra de velhice. Imagino que tenham voltado à Terra sãos e salvos. Pessoal, se estiverem lendo isto: a culpa não foi sua. Vocês fizeram o que tinham de fazer. No seu lugar, eu teria feito a mesma coisa. Não os culpo e fico feliz que tenham sobrevivido.
Acho que eu deveria explicar para algum leigo que talvez esteja lendo isto como funcionam as missões a Marte. Chegamos à órbita terrestre normalmente, em uma nave comum até a Hermes. Todas as missões Ares usam a Hermes para ir e vir de Marte. É uma nave muito grande e foi caríssima, então a Nasa só construiu uma.
Uma vez na Hermes, quatro missões adicionais não tripuladas nos levaram combustível e suprimentos enquanto nos preparávamos para a viagem. Quando tudo estava pronto, partimos para Marte. Mas não muito depressa. Já passou o tempo das grandes queimas de combustível químico e órbitas de injeção transmarciana.
A Hermes é alimentada por motores iônicos. Eles expelem argônio pela traseira da nave rápido o bastante para obter uma pequena aceleração. Não é necessária muita massa reagente, então, um pouco de argônio (e um reator nuclear para alimentar tudo) nos permite acelerar constantemente durante todo o percurso. Vocês ficariam surpresos com a velocidade que podemos alcançar com uma aceleração ínfima ao longo de muito tempo.
Eu poderia deleitar vocês com as histórias de quanto nos divertimos durante a viagem, mas não vou fazer isso. Não estou a fim de reviver esses momentos agora. Basta dizer que chegamos a Marte 123 dias depois, sem estrangular uns aos outros.
De lá, pegamos o VDM (veículo de descida em Marte). O VDM é basicamente uma grande lata com alguns propulsores leves e paraquedas acoplados. Seu único objetivo é levar seis seres humanos da órbita até a superfície de Marte sem matar nenhum deles.
E, agora, chegamos ao ponto crucial da exploração de Marte: ter toda a nossa tralha lá de antemão.
Ao todo, catorze missões não tripuladas levaram tudo o que precisaríamos para as operações de superfície. Tentaram fazer as naves de abastecimento pousarem na mesma área e fizeram um trabalho razoavelmente bom. Os suprimentos não são nem de longe tão frágeis quanto os seres humanos e podem se chocar com força contra o solo. Mas tendem a quicar muito.
É óbvio que não nos mandaram para Marte antes de confirmarem que todos os suprimentos haviam chegado à superfície e que os contêineres não estavam avariados. Do início ao fim, incluindo as missões de abastecimento, uma missão a Marte demora cerca de três anos. Na verdade, os suprimentos para a Ares 3 já estavam a caminho enquanto a tripulação da Ares 2 voltava para casa.
A parte mais importante dos suprimentos prévios era o VAM, o veículo de ascensão de Marte. Era assim que voltaríamos à Hermes após concluídas as operações de superfície. O VAM era pousado com suavidade (ao contrário das bolas quicantes usadas para os outros suprimentos). Obviamente, estava em comunicação constante com Houston e, se houvesse algum problema, teríamos passado por Marte e voltado para casa sem aterrissar.
O VAM é bem legal. Por meio de um belo conjunto de reações químicas com a atmosfera marciana, é possível, a partir de cada quilo de hidrogênio que você leva para Marte, produzir 13 quilos de combustível. O processo, porém, é lento. São necessários 24 meses para encher o tanque. É por isso que o enviaram muito antes de chegarmos aqui.
Vocês podem imaginar como fiquei decepcionado ao descobrir que o VAM tinha ido embora.
Foi uma sequência ridícula de acontecimentos que quase me fez morrer, e uma sequência ainda mais ridícula que me fez sobreviver.
A missão é projetada para suportar rajadas de tempestades de areia de até 150km/h. Então, é compreensível que o pessoal em Houston tenha ficado preocupado quando fomos castigados por ventos de 175km/h. Todos nós vestimos nossos trajes espaciais e nos amontoamos no centro do Hab, para o caso de haver perda de pressão. Mas o Hab não foi o problema.
O VAM é uma nave espacial. Tem um monte de peças delicadas. Pode aguentar tempestades até certo ponto, mas não suporta ser exposto a uma tempestade de areia tão longa. Depois de uma hora e meia de ventos fortes, a Nasa ordenou que abortássemos a missão. Ninguém queria interromper uma missão de um mês passados apenas seis dias, mas, se o VAM continuasse a ser castigado, todos nós ficaríamos isolados em Marte.
Precisávamos sair na tempestade para irmos do Hab ao VAM. Seria arriscado, mas que alternativa nós tínhamos?
Todo mundo conseguiu, menos eu.
Nossa principal parabólica de comunicação, que retransmitia sinais do Hab à Hermes, se tornou um paraquedas quando foi arrancada das suas fundações e carregada pela ventania. No caminho, chocou-se contra o conjunto de antenas de recepção. Então, a extremidade de uma daquelas antenas longas e finas me acertou, rasgando o meu traje como faca atravessando manteiga. Senti a pior dor da minha vida enquanto ela cortava a lateral do meu corpo. Lembro-me vagamente de ter perdido o ar por causa do golpe (foi como se tivessem arrancado o ar de dentro de mim, na verdade) e meus ouvidos começaram a estalar, de forma dolorosa, à medida que meu traje perdia pressão.
A última coisa que recordo foi ter visto Johanssen tentando desesperadamente me segurar.
Acordei com o alarme de oxigênio do meu traje. Um bipe contínuo e irritante que acabou me despertando de um profundo desejo de morrer.
A tempestade havia acalmado; eu estava de bruços, enterrado na areia quase por completo. Aturdido, recobrando os sentidos, me perguntei por que não estava morto.
A antena teve força suficiente para atravessar o traje e a lateral do meu corpo, mas havia sido detida pela minha bacia. Portanto, só tinha um buraco no traje (e em mim, é claro).
Eu tinha sido jogado longe e rolara por uma colina íngreme. De alguma maneira, aterrissei de bruços, o que forçou a antena a ficar em um ângulo muito oblíquo que exercia uma força de torque no buraco do traje. Funcionou como um lacre frágil.
O sangramento da minha ferida gotejou até o buraco. Quando o sangue atingiu o rasgo, a água nele evaporou depressa, por causa do fluxo de ar e da baixa pressão, deixando um resíduo grudento. Isso acabou lacrando as fendas em volta do buraco, reduzindo o vazamento a um volume que o traje podia contrabalançar.
O traje funcionou muito bem. Sentindo a queda de pressão, inundou-se constantemente de ar do meu tanque de nitrogênio para se reequilibrar. Quando o vazamento se tornou administrável, o traje só tinha de liberar aos poucos uma pequena quantidade de ar novo para contrabalançar o que era perdido.
Depois de um tempo, os absorvedores de CO2 descartados. Esse é o fator realmente limitante do sistema de suporte à vida. Não a quantidade de oxigênio que você leva, mas a quantidade de CO2 que consegue remover. No Hab, tenho o oxigenador, um equipamento grande que divide o CO2 para criar oxigênio outra vez. Mas os trajes espaciais precisam ser portáteis. Por isso, usam um processo simples de absorção química com filtros descartáveis. Eu havia ficado adormecido tempo suficiente para inutilizar meus filtros.
O traje percebeu esse problema e entrou em um modo de emergência que os engenheiros chamam de “derramamento de sangue”. Sem ter como separar o CO2 expeliu ar para a atmosfera marciana e se preencheu com nitrogênio. Isso, somado ao rasgo, fez o nitrogênio acabar logo. Tudo o que restava era o meu tanque de oxigênio.
Então, o traje fez a única coisa possível para me manter vivo: começou a se encher de oxigênio puro. Eu corria o risco de morrer de hiperóxia, pois o nível excessivamente alto de oxigênio ameaçava queimar meu sistema nervoso, meus pulmões e olhos. Oxigênio demais: uma morte irônica para alguém com um traje espacial furado.
A cada instante, devia haver alarmes, alertas e avisos. Mas foi o alarme de nível excessivo de oxigênio que me acordou.
O volume de treinamento para uma missão espacial é impressionante. Passei uma semana inteira na Terra fazendo exercícios relativos a emergências com trajes espaciais. Eu sabia o que fazer.
Alcançando com cuidado a lateral do meu capacete, peguei o kit para vazamentos, que nada mais é do que um funil com uma válvula na extremidade mais estreita e uma resina grudenta na extremidade mais larga. A ideia é ficar com a válvula aberta e grudar a parte mais larga em cima de um furo. O ar pode escapar pela válvula e, assim, não interfere no lacre feito pela resina. Depois, é só fechar a válvula e o vazamento está lacrado.
A parte complicada era tirar a antena do caminho. Puxei-a para fora o mais depressa possível, estremecendo quando a repentina queda de pressão me deixou tonto e fez a ferida na lateral do meu corpo latejar.
Pus o kit para vazamentos sobre o buraco e o lacrei. Deu certo. O traje preencheu o arque estava faltando com mais oxigênio. Verificando os mostradores no meu braço, vi que o traje estava com 85 por cento de oxigênio. Só a título de referência, a atmosfera terrestre tem cerca de 21 por cento. Eu ficaria bem desde que não continuasse naquela situação por muito tempo.
Subi a colina cambaleando rumo ao Hab. Chegando ao topo, vi algo que me deixou muito feliz e algo que me deixou muito triste. O Hab estava intacto (oba!) e o VAM tinha ido embora (droga!).
Naquele exato momento, me dei conta de que estava ferrado. Mas eu não queria simplesmente morrer na superfície. Fui mancando até o Hab e me arrastei até uma eclusa de ar. Assim que a pressão equalizou, tirei o capacete.
No Hab, tirei o traje e, pela primeira vez, avaliei bem o ferimento. Precisaria de pontos.Por sorte, fomos treinados em procedimentos médicos básicos e o Hab tinha excelentes suprimentos médicos. Uma rápida injeção de anestésico local, assepsia da ferida, nove pontos e pronto. Eu ia ter que tomar antibióticos por umas duas semanas, mas, fora isso, ficaria bem.
Eu sabia que seria em vão, mas tentei ligar o equipamento de comunicação. Nenhum sinal, claro. A principal antena parabólica havia se partido, lembra? E levou junto as antenas de recepção. O Hab possuía sistemas de comunicação secundários e terciários, mas ambos só serviam para falar com o VAM, que usaria seus sistemas muito mais potentes para retransmitir a comunicação até a Hermes. A questão é que isso só funciona se o VAM ainda está por perto.
Eu não tinha como falar com a Hermes. Depois de algum tempo, poderia localizar a parabólica na superfície, mas levaria semanas para fazer algum conserto e seria tarde demais.
Em caso de missão abortada, a Hermes deveria deixar a órbita em 24 horas. A dinâmica orbital torna a viagem mais segura e curta se você parte quanto antes, então, por que esperar?
Ao verificar meu traje, vi que a antena havia perfurado meu computador biomonitor. Em uma atividade extraveicular (AEV), todos os trajes da tripulação estão ligados em rede para que possamos ver o estado uns dos outros. O restante da tripulação deve ter visto a pressão no meu traje cair a quase zero e, logo depois, meus sinais vitais desaparecerem. Além disso, eles me viram rolar colina abaixo perfurado por uma lança no meio de uma tempestade de areia... pois é. Devem ter pensado que eu estava morto. E com toda a razão.
Talvez até tenham discutido rapidamente se deveriam resgatar meu corpo ou não, mas o regulamento é claro: se um tripulante morre em Marte, ele fica em Marte. Deixar o cadáver para trás reduz o peso para o VAM na viagem de volta. Isso significa mais combustível disponível e uma margem de erro maior para o empuxo de retorno. Não faz sentido abrir mão disso em nome de sentimentalismo.
Então, esta é a situação: estou perdido em Marte. Não tenho como me comunicar com a Hermes nem com a Terra. Todos acham que estou morto. Estou em um Hab projetado para durar 31 dias.
Se o oxigenador quebrar, vou sufocar. Se o reaproveitador de água quebrar, vou morrer de sede. Se o Hab se romper, vou explodir. Se nada disso acontecer, vou ficar sem alimento e acabar morrendo de fome.
Então, é isso mesmo. Estou ferrado.


E aí gostaram do primeiro capítulo??? Então adicionem o livro a sua estante no Skoob. Já leram esse livro??? Não esqueçam que tem resenha dele aqui no blog. Quer indicar algum livro bom para aparecer aqui??? Deixem nos comentários, vou adorar responder a tod@s.

Bjoks da Gica.

2 comentários:

  1. Oi, Giane, tudo bem?

    Nossa, adorei essa coluna! Muito legal poder ler o primeiro capitulo de um livro! :)
    Às vezes a gente quer ler o livro mas está em dúvidas... e esse é exatamente o meu caso com Perdido em Marte. Li comentários otimos sobre o filme, mas alguns contraditórios sobre o livro.
    Falaram que ele tinha muitas siglas e termos técnicos... pensei que isso poderia deixar a leitura menos fluida. Porém, apesar desse primeiro capitulo ter algumas siglas e termos, não achei nada demais. E o personagem parece ser bem irreverente, né? Hahahaha

    Adorei!!!

    Beijo
    - Tami
    http://www.meuepilogo.com

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  2. Se eu já sentia que precisava ler esse livro, agora então....

    Pandora
    O que tem na nossa estante

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