10 de fevereiro de 2016

Capítulo da Semana #12 - Nosferatu

Olá pessoal, como estão??? Espero que tod@s bem! Hoje vim trazer para vocês o primeiro capítulo de um livro que li faz pouco e adorei: Nosferatu de Joe Hill. Vamos acompanhar!

Victoria McQueen tem um misterioso dom: por meio de uma ponte no bosque perto de sua casa, ela consegue chegar de bicicleta a qualquer lugar no mundo e encontrar coisas perdidas. Vic mantém segredo sobre essa sua estranha capacidade, pois sabe que ninguém acreditaria. Ela própria não entende muito bem. Charles Talent Manx também tem um dom especial. Seu Rolls-Royce lhe permite levar crianças para passear por vias ocultas que conduzem a um tenebroso parque de diversões: a Terra do Natal. A viagem pela autoestrada da perversa imaginação de Charlie transforma seus preciosos passageiros, deixando-os tão aterrorizantes quanto seu aparente benfeitor. E chega então o dia em que Vic sai atrás de encrenca... e acaba encontrando Charlie. Mas isso faz muito tempo e Vic, a única criança que já conseguiu escapar, agora é uma adulta que tenta desesperadamente esquecer o que passou. Porém, Charlie Manx só vai descansar quando tiver conseguido se vingar. E ele está atrás de algo muito especial para Vic. Perturbador, fascinante e repleto de reviravoltas carregadas de emoção, a obra-prima fantasmagórica e cruelmente brincalhona de Hill é uma viagem alucinante ao mundo do terror.


PRÓLOGO: BOAS FESTAS DEZEMBRO DE 2008

Presídio Federal de Englewood, Colorado

A ENFERMEIRA THORNTON ENTROU NA UNIDADE de cuidados prolongados pouco antes das oito, levando uma bolsa de sangue aquecida para Charlie Manx.
Ela agia de forma automática, sem pensar no trabalho. Finalmente decidira comprar para o filho Josiah o Nintendo DS que ele tanto queria e estava calculando se depois do plantão daria tempo de pegar a loja de brinquedos ainda aberta.
Por motivos filosóficos, passara algumas semanas resistindo àquele impulso. Na verdade, pouco ligava para o fato de que todos os amigos do filho tivessem um DS. Ellen Thornton não gostava desses videogames portáteis que as crianças viviam carregando para cima e para baixo. Os meninos eram absorvidos pelo monitor brilhante e trocavam o mundo real por um recanto da imaginação, onde a diversão substituía o pensamento e inventar mortes criativas passava a ser uma forma de arte. Antigamente, gostava de pensar que o filho adoraria ler, fazer palavras cruzadas e caminhar na neve junto com ela. Até parece.
Havia se contido o quanto pudera, e então, na tarde da véspera, flagrara Josiah sentado na cama fingindo que uma carteira velha era um Nintendo DS, apertando botões imaginários e fazendo barulhos de explosão. O menino tinha recortado uma imagem do Donkey Kong e inserido na divisória de plástico transparente usada para guardar fotos. Ellen sentira um pequeno aperto no coração ao notar que o filho já dava como certo que ganharia o videogame no Grande Dia. Ela podia até ter as suas teorias sobre o que era ou não saudável para meninos pequenos, mas nem por isso o Papai Noel precisava compartilhá-las.
Como estava preocupada, só percebeu o que havia de diferente em relação a Charlie Manx quando já dava a volta em sua cama para chegar à sonda intravenosa. Nesse exato momento, ele suspirou, como se estivesse entediado; ela baixou os olhos e deparou com o paciente a encará-la. Ficou tão espantada ao vê-lo de olhos abertos que a bolsa de sangue escapuliu de seus dedos e quase caiu em seus pés.
Ele era muito velho, sem falar que era horroroso. Seu imenso crânio calvo era um globo que parecia uma lua alienígena, cheia de continentes marcados por manchas senis e sarcomas da mesma cor de hematomas. Dentre todos os pacientes da unidade de cuidados prolongados – também conhecida como Recanto dos Vegetais –, o mais nefasto era Charlie Manx, que fora abrir os olhos justamente naquela época do ano. Manx gostava de criancinhas e sumira com dezenas delas na década de 1990. Tinha uma casa no sopé das montanhas Flatirons, onde fazia o que queria com as vítimas, depois as matava e pendurava enfeites de Natal em homenagem a elas. A imprensa tinha batizado o local de Casa Sino. Blém, blém, blém.
Em geral, quando estava no trabalho, Ellen conseguia desligar a parte materna do cérebro e não pensar no que Charlie Manx decerto tinha feito com as menininhas e menininhos que haviam cruzado o seu caminho e tinham a mesma idade do seu Josiah. Na verdade, tentava não pensar em nenhum dos crimes de seus pacientes. O que estava deitado no outro canto do quarto tinha amarrado a namorada e os dois filhos dela, tocara fogo na casa e os deixara lá para morrerem queimados. Fora preso em um bar na mesma rua, tomando um uísque e assistindo a uma partida do White Sox contra os Rangers. Para Ellen, de nada adiantava refletir sobre essas coisas, portanto ela havia se condicionado a pensar nos pacientes como extensões das máquinas e sondas intravenosas às quais estavam conectados: periféricos de carne.
Desde que começara a trabalhar na enfermaria de Englewood, ela nunca tinha visto Charlie Manx de olhos abertos. Fazia três anos que Ellen integrava o quadro de funcionários e, durante todo esse tempo, ele permanecera em coma. Era o mais frágil de todos os seus pacientes, uma fina camada de pele cobrindo os ossos. Seu monitor cardíaco bipava feito um metrônomo ajustado na velocidade mais baixa possível. Segundo o médico, ele tinha tanta atividade cerebral quanto uma lata de creme de milho. Ninguém sabia sua idade, mas ele parecia mais velho do que Keith Richards. Era até um pouco parecido com o guitarrista – um Keith careca com a boca cheia de pequenos dentes marrons e afiados.
Havia mais três pacientes em coma naquela enfermaria e os funcionários os chamavam de SDS, “só Deus sabe”. Quem passava tempo suficiente com um SDS acabava aprendendo que cada um tinha as suas pequenas manias. Don Henry, o tal que havia tocado fogo na namorada e nos filhos dela, de vez em quando fazia “caminhadas”. Não se levantava, é claro, mas seus pés se punham a pedalar devagarinho sob as cobertas. Havia um sujeito chamado Leonard Potts que entrara em coma cinco anos antes e que nunca mais sairia desse estado – outro detento tinha enfiado em seu crânio uma chave de fenda que lhe perfurara o cérebro. Às vezes, porém, ele pigarreava e gritava “Eu sei!” como se fosse uma criança pequena querendo responder à pergunta da professora. Talvez abrir os olhos fosse a mania de Manx e simplesmente Ellen nunca o tivesse visto fazer isso.
– Olá, Sr. Manx – disse ela sem pensar. – Como está se sentindo?
Ela abriu um sorriso artificial e hesitou, ainda segurando a bolsa de sangue. Não esperava uma resposta, mas achou que fosse educado dar ao paciente alguns instantes para organizar seus pensamentos inexistentes. Como Manx permaneceu em silêncio, ela estendeu uma das mãos para fechar suas pálpebras.
Manx agarrou seu pulso. Ela gritou – não conseguiu evitar – e deixou cair a bolsa de sangue, que bateu no chão e explodiu em um jorro escarlate, encharcando seus pés com o líquido morno.
– Ai! – gritou ela. – Ai! Ai! Ai, meu Deus do céu!
O cheiro lembrava ferro derretido.
– O seu filho, Josiah... – começou Manx, com uma voz áspera. – Tem um lugar para ele lá na Terra do Natal junto com as outras crianças. Eu poderia dar a ele uma nova vida. Poderia dar a ele um lindo sorriso novo. E lindos dentes novinhos em folha.
Ouvi-lo pronunciar o nome do seu filho foi pior do que sentir a mão de Manx no pulso ou o sangue nos pés. (Sangue limpo, pensou ela, limpo.) Ouvir aquele assassino e molestador de crianças falar sobre seu filho a deixou tonta, tonta de verdade, como se estivesse dentro de um elevador de vidro subindo depressa em direção ao céu e vendo o mundo se afastar lá embaixo.
– Me solta – sussurrou ela.
– Tem um lugar para Josiah John Thornton lá na Terra do Natal e um lugar para você na Casa do Sono. O Homem da Máscara de Gás saberia direitinho o que fazer com você. Faria você respirar fumaça de pão de mel e ensinaria você a amá-lo. Nós não podemos levar você conosco para a Terra do Natal. Ou melhor, eu até poderia, mas o Homem da Máscara de Gás é superior. O Homem da Máscara de Gás é misericordioso.
– Socorro – tentou gritar Ellen, mas saiu apenas um sussurro. – Socorro. – Sua voz tinha sumido.
– Eu vi Josiah lá no Cemitério do Talvez. Josiah deveria andar no Espectro. Na Terra do Natal ele seria feliz para sempre. Lá o mundo não pode estragá-lo, porque lá não fica no mundo. Fica dentro da minha cabeça. Eles estão todos seguros dentro da minha cabeça. Tenho sonhado com ela, sabe? Com a Terra do Natal. Tenho sonhado com ela, mas ando, ando e não consigo chegar ao fim do túnel. Ouço as crianças cantarem, mas não consigo alcançá-las. Ouço-as gritar por mim, mas o túnel não termina. Eu preciso do Espectro. Preciso do meu brinquedo.
Ele pôs a língua para fora, uma língua marrom, reluzente e obscena, e lambeu os lábios secos. Então, soltou seu pulso.
– Socorro – sussurrou Ellen. – Socorro. Socorro. Socorro.
Teve que repetir a palavra mais uma ou duas vezes antes de a voz sair alta o suficiente para alguém escutar. Então atravessou as portas que davam para o corredor e saiu em disparada, gritando a plenos pulmões e deixando um rastro de pegadas vermelho-vivo.
Dez minutos mais tarde, uma dupla de agentes penitenciários vestidos com roupa de choque tinha amarrado Manx ao leito, só para o caso de ele abrir os olhos e tentar se levantar. Mas o médico que dali a pouco chegou para examiná-lo disse que podiam soltar o detento.
– Esse cara está acamado desde 2001 e tem que ser virado quatro vezes por dia para não ficar com escaras. Mesmo que ele não fosse um SDS, está fraco demais para ir aonde quer que seja. Depois de sete anos de atrofia muscular, duvido que ele consiga se sentar sem ajuda.
Ellen o escutava junto às portas, pois, se Manx tornasse a abrir os olhos, pretendia ser a primeira a sair do quarto. Porém, quando o médico falou aquilo, atravessou o recinto a passos firmes e arregaçou a manga direita para mostrar as marcas no pulso que Manx havia segurado.
– Isto aqui por acaso parece ter sido obra de um cara fraco demais para se sentar? Achei que ele fosse arrancar meu braço.
Ela havia tirado a meia-calça encharcada de sangue e lavado os pés, que ardiam quase tanto quanto o pulso, com água fervente e sabonete antibacteriano até deixá-los esfolados. Agora estava calçando seus tênis e os sapatos tinham ido para o lixo. Mesmo que pudessem ser recuperados, não achava que algum dia fosse conseguir usá-los de novo.
O médico, um jovem indiano chamado Patel, fitou-a com uma expressão sem graça de quem se desculpa e curvou-se para iluminar os olhos de Manx com uma pequena lanterna. As pupilas não se dilataram. Patel moveu a luzinha de um lado para outro, mas os olhos de Manx permaneceram fixos em um ponto logo atrás de sua orelha esquerda. O médico bateu as mãos a dois centímetros do nariz de Manx, que não piscou. Então, Patel fechou seus olhos com delicadeza e examinou o resultado do eletrocardiograma que estava em curso.
– Aqui não tem nada de diferente das últimas dezenas de eletros que fizemos – afirmou. – O paciente está no grau nove da escala de Glasgow e apresenta uma atividade lenta de ondas alfa condizente com um coma alfa. Acho que ele só falou dormindo, enfermeira. Acontece até com esse tipo de SDS.
– Ele estava com os olhos abertos – replicou Ellen. – Ele olhou para mim. Sabia o meu nome. Sabia o nome do meu filho.
– A senhora já conversou com outra enfermeira perto dele? Não há como saber o que o cara pode ter pescado inconscientemente. Basta a senhora ter dito: “Ah, sabia que o meu filho ganhou o concurso de soletrar?” Manx escutou e regurgitou essa informação no meio do sono.
Ellen aquiesceu, ainda que pensasse Ele sabia o segundo nome do Josiah. Tinha certeza de que nunca mencionara isso a qualquer pessoa ali no hospital. “Tem um lugar para Josiah John Thornton lá na Terra do Natal”, dissera Charlie Manx, “e um lugar para você na Casa do Sono”.
– Eu não cheguei a aplicar o sangue – avisou Ellen. – Ele está anêmico há algumas semanas: pegou uma infecção urinária por causa do cateter. Vou buscar outra bolsa.
– Pode deixar que eu aplico o sangue neste vampiro velho. A senhora levou um susto e tanto. Esqueça tudo isso. Vá para casa. Falta o quê, uma hora do seu plantão? Pode ir embora mais cedo. Tire folga amanhã também. Não tem umas comprinhas de última hora para fazer? Então, pare de pensar no que aconteceu e relaxe. É Natal, enfermeira Thornton. – O médico deu uma piscadela. – A senhora não sabe que esta é a época mais maravilhosa do ano?



E aí, gostaram??? Então adicionem o livro a sua estante no Skoob. Já leram esse livro??? Tem resenha dele no blog já. Quer indicar algum livro bom para aparecer aqui??? Deixem nos comentários, vou adorar responder a tod@s.

Bjoks da Gica.

4 comentários:

  1. Olá!
    Nossa, que incrível!
    De Joe Hill eu só li A Estrada da Noite e gostei bastante. O Pacto e Nosferatu já estão na minha lista de leituras futuras!
    =D

    http://osdragoesdefogo.blogspot.com/

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    1. Olá Kaio.

      Também estou com O Pacto na minha lista de desejados. Não conhecia esse A Estrada da Noite. Vou pesquisar e quem sabe já o adiciono na minha lista. Também anotei sua indicação! :D Obrigada pela visita.

      Bjoks da Gica.

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  2. Oiiii Gi, tudo bem???? Olha eu aqui <3 Na correria, acabo sumindo :P Mas aqui estou =D Menina, adorei esse capítulo. O livro já estava na minha lista, e agora depois de ler este trechinho, sinto que preciso conhecer essa história o mais rápido possível. E espero curtir, assim como você =D
    Beijoooos
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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    1. Oi Gih. Tudo ótimo e com você???
      Normal isso. Eu também estava afastada do blog já faz um bom tempo, mas agora estou de volta com os posts e as visitas. :D O importante é que quando a gente tem um tempinho sempre prestigia o trabalho uma da outra. Esse é o intuito ao divulgar o capítulo do livro: criar o interesse na leitura ou fazer com que aquelas pessoas que o tinham na lista corram para lê-lo. kkkk :D Espero que você goste da leitura. Obrigada pela visita.

      Bjoks da Gica.

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